quinta-feira, outubro 26, 2006

Nau à deriva: onde está o timão?


Este post foi originalmente desenvolvido como parte das atividades (resenha) da disciplina de Relações Interpessoais e Equipes de Alta Performance, ministrado pelo Prof. Pedro Bendassoli e parte do CEAG-R.


Fonte da resenha: A Corrosão do Caráter – Conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Richard Sennett, Record, 2004, Caps. 1, 2, 3 e 8



Ao voltar de sua viagem a Davos, o destino junta duas pessoas que não se viam há quinze anos. De um lado, Rico, filho de Enrico a quem o próprio Sennett (do outro lado) havia entrevistado como parte de seu trabalho para publicar o livro “The Hiden Injuries of Class”. Durante sua viagem de volta aos EUA Sennett encontra uma oportunidade para refletir sobre as conseqüências do novo capitalismo no indivíduo e analisa questões como “estar a deriva”, “rotina”, “flexibilidade” e “Nós – o pronome perigoso”.

A questão de indivíduos “à deriva” é colocada pelo autor como resultante do macro-ambiente nos quais estamos imersos hoje. Para Sennett, estamos à deriva por não sermos capazes de estabelecer uma narrativa linear para nossas vidas. Esta incapacidade tem suas raízes no paradigma do “curto prazo” que seria imposto pelo modelo do novo capitalismo e nas suas inevitáveis conseqüências. Estas conseqüências seriam a falta de compromisso e lealdade entre as pessoas e organizações. A questão não é que “o ser humano é mau por natureza”, como já acreditaram alguns filósofos, mas sim no fato de que compromisso[1] e lealdade[2] são atributos de uma personalidade de longo prazo. O curto prazo não favorece o estabelecimento de vínculos emocionais suficientemente fortes para justificar o compromisso e a lealdade. Desta forma há uma corrosão no caráter[3] pois os relacionamentos que visam o curto prazo (como a relação nas equipes) não permitem o estabelecimento dos vínculos necessários. Busca-se a performance sim, o resultado, o desempenho, mas à mercê da corrosão do caráter. Em suas agendas ocultas, o curto prazo é fator contribuinte para a baixa eficácia das equipes.

Para resolver a questão da narrativa não-linear, Sennett traça um perfil histórico da “rotina”[4] e suas origens. E aqui há uma questão muito interessante, pois é apresentada uma questão dual. A rotina como enobrecedora do espírito (Diderot) contra a visão de que a rotina embrutece o espírito (Adam Smith). Ao prosseguir sua narrativa, o autor esclarece que as piores previsões de Adam Smith ganham vida com o advento do Fordismo, e que não obstante o esforço para planejar, cronometrar e racionalizar o controle excessivo produziu um efeito colateral: com a decomposição do trabalho surgem os sindicatos e dá-se uma disputa de forças que estabelecem uma frágil noção de estabilidade. Passou-se a considerar que embora o trabalho fosse decomposto narrativas de vidas inteiras são descritas a partir desta rotina.

A reação a esta “estabilidade” é a noção moderna de flexibilidade. Ser “flexível”[5] na opinião do autor é uma solução para combater “os males da rotina”. Uma das questões interessantes é que o foco atual é muito maior nas forças que podem nos dobrar do que a preocupação com a questão: “até onde podemos ser dobrados?” Ser flexível é ser ágil, em contraponto a ser lento (rotina). Os principais pontos que são discutidos dizem respeito a questões, na verdade, nada triviais como: (a) reinvenção descontínua; (b) especialização flexível da produção; (c) concentração de poder sem centralização.

Na reinvenção descontínua, destaco a questão da famosa “reengenharia” e o ponto de que atualmente ser flexível é muito mais importante do que ser eficaz. Uma empresa eficaz pode ser completamente desmantelada somente para mostrar a seus acionistas que é uma empresa ágil e flexível. Em busca dos ganhos de curto prazo quem sai perdendo são as pessoas competentes. E aqui se contribuí para a questão do compromisso e da lealdade.

A especialização flexível nos permite verificar que o mercado consumidor é também uma força que não pode ser desconsiderada nesta análise. A organização flexível serve aos pequenos grupos e prima pela rapidez na tomada de decisão. O curioso, é que nos é demonstrado que existem dois tipos deste novo capitalismo: o americano (mais conhecido como neoliberalismo) e o europeu (mais conhecido como capitalismo de Estado). Aqui resta uma pista: é possível ser ágil e flexível sem deixar as pessoas à mercê dos sabores do capitalismo. Em uma última análise, no entanto, nos parece que mesmo na Europa a visão da proteção do Estado para com os menos favorecidos está sucumbindo à visão americana (onde o assistencialismo é visto de forma pejorativa).

Outra questão interessante na flexibilidade é a concentração de poder sem centralização. As mesmas redes que contribuem para o enfraquecimento das relações interpessoais são também as responsáveis pela flexibilidade organizacional. Cada nó da rede é, no entanto, uma ilha de poder.

O controle da rotina foi substituído por um outro tipo de controle, mais conhecido como “flexitempo” ou “horário flexível”. É importante notar, que o horário flexível não é um privilegio para todos. A tão “bem-vinda” flexibilidade não é democrática. A flexibilidade que pretendia nos libertar da rotina apenas trocou de senhor. Somente os que estão em Davos escapam de seus efeitos destrutivos e corrosivos no caráter.

Por último, Sennett nos fala do mais perigoso de todos os pronomes: Nós. Segundo o autor “as incertezas da flexibilidade, a superficialidade do trabalho em equipe, a ausência de confiança e compromisso com raízes profundas, o espectro de “não fazermos nada de nós mesmos”, a insegurança de não arrumar um galho com nosso trabalho” são inquietações e inseguranças que despertam a necessidade de vivermos em comunidade. A comunidade seria então, uma possível solução para nos proteger do novo capitalismo. Há, no entanto, uma dificuldade em partir da necessidade para a ação. Faz-se necessário compreender que somos incompletos e imperfeitos e que para vivermos uma experiência plena precisamos uns dos outros.

Esta dificuldade tem sua origem no paradigma atual, no qual o senso de mútua dependência não é visto de forma positiva, pois corrói a confiança necessária para sermos flexíveis e abertos à mudança. E aí reside uma das principais dificuldades de qualquer empreendimento coletivo. Por isso o autor defende que o trabalho em equipe é um modelo empobrecido e fraco de comunidade. Os vínculos fracos entre as pessoas não permitem que um diálogo franco seja estabelecido, pavimentando a confiança necessária para que o senso de mútua dependência possa ser estabelecido. Simplesmente não há tempo para isso.

Em busca de uma narrativa, o homem pós-moderno precisa de testemunhas. Testemunhas de sua trajetória de vida. Mas estas testemunhas são observadores ativos em nossas vidas, pois contam conosco. Para tal, se faz necessário ser digno de confiança, para sermos necessário e, portanto, o outro deve precisar deste homem. Mas quem precisa dele? Sennett finaliza de forma desconsolada que só quem parece estar livre desta necessidade é o “Homem de Davos”, e que para conduzir uma vida comum as conseqüências desta flexibilidade é esta narrativa não-linear, à deriva, sem referências de longo prazo. A crença de Sennet é que nenhum sistema baseado na indiferença com relação ao indivíduo pode resistir no longo prazo. Espero que ele esteja certo.

O trabalho de Sennet nos auxilia a melhor compreender o papel das equipes no novo capitalismo. As equipes são a resposta necessária para a dita flexibilidade das organizações. Sendo pequenas, tomam decisões ágeis. Suas relações interpessoais são baseadas em redes e estão alinhadas com o curto prazo. A pesar dos impactos corrosivos no caráter dos indivíduos, as organizações parecem estar procurando um processo “robusto às pessoas”. As equipes podem ser desmontadas em nome da reengenharia e seus ganhos de capital de curto prazo. As pessoas, desmanteladas no processo, são parte de um processo darwinista.

A formulção do macro-ambiente pós-moderno, como descrita por Sennett é apenas uma visão parcial do macro-processo atual. Muito embora o “Homem de Davos” seja o modelo de sucesso, há muitos que não enxergam nestes homens o modelo ideal de ser humano. Há os que escolhem vidas mais simples, como Enrico o faxineiro, e mesmo neste mundo do novo capitalismo os “Enricos” de hoje continuam com trajetórias lineares e com forte senso de dependência e de comunidade. Há também a questão de que há vários anos, até mesmo nos EUA, vem crescendo a preocupação em formar este senso de mútua dependência através das organizações não-governamentais (ONGs). O terceiro setor, já é uma realidade e uma parte expressiva dos profissionais atuais. Estes já percebem este setor não só como uma alternativa para o paradigma do novo capitalismo, mas também como forma de optar por possuir uma narrativa mais linear, de visar relações de longo prazo, de viver em comunidade.

Para citar um exemplo pessoal, do conflito da corrosão do caráter, está na questão em aprender a lidar com a fragmentação da narrativa pessoal. Estar em São José dos Campos, longe da família com o propósito de construir uma carreira. Criar referências duradouras, de longo prazo, não é fácil. Como o próprio conceito diz, leva tempo.

No conjunto desta obra, creio que fica a reflexão sobre as conseqüências das decisões pessoais em contraponto às pressões exercidas pelo macro-ambiente, pela organização e por todos os grupos dos quais participo. Ser flexível é uma virtude dos tempos pós-modernos. Resta agora ter a sabedoria para ter a força de caráter necessária para não se deixar corromper pelos efeitos nocivos deste paradigma. Já dizia John Lennon, “nenhum homem é uma ilha”. Vou admitir, não sou perfeito. Preciso de você. Na composição “Nau à Deriva” os Engenheiros do Hawaii nos dizem:

“Nau à deriva no asfalto ou em alto mar, "perigo, perigo", perdidos no espaço sideral. Apocalipse now, à deriva, talvez um parto, talvez aborto, destroços da nave mãe. Nau à deriva, no asfalto ou em alto mar, "perigo, perigo", perdidos no espaço sideral. Apocalipse now, à deriva, longe demais do cais do porto, perto do caos. Meu coração é um porta aviões,perdido no mar esperando alguém pousar meu coração é um porto sem endereço certo é um deserto em pleno mar”

Se estamos à deriva, nos resta perguntar: onde está o timão? Creio que o timão esteja sim na dedicação genuína às pessoas que você ama. Seus pais, sua família, seus filhos. O primeiro e mais básico de todos os grupos. No longo prazo, são com estas pessoas que você poderá contar para estabelecer a sua narrativa, a sua referência. Na família está o primeiro senso de mútua dependência. Dos vínculos familiares poderão surgir outros vínculos comunitários. O círculo de amigos, a igreja (a comunidade, não os prédios), o investimento para tornar-se uma personalidade dentro de uma comunidade pessoal. Mesmo no trabalho, creio que se deva buscar uma nova relação dentro das equipes, algo próximo ao que James C. Hunter em seu livro, “O Monge e o Executivo” apresenta: que o relacionamento nas equipes deve-se basear no serviço ao outro. Isto contribuiria para estabelecer vínculos mais duradouros tornando menos superficial e corrosiva a relação nas equipes. Se este é o caminho? Só o logo prazo nos dirá.

[1] Extraído do Mini-dicionário Caldas Aulete: “Compromisso: sm. 1 Acordo entre pessoas que as obriga a fazer algo: Temos o compromisso de ajudá-lo; “Lúcia não tinha compromissos para comigo...” (José de Alencar, Lucíola). 2 Obrigação social: Tinha muitos compromissos agendados.

[2] Extraído do Mini-dicionário Caldas Aulete “Leal 1 Que é honesto e sincero. 2 Que honra os compromissos assumidos.”

[3] Extraído do Mini-dicionário Caldas Aulete: “Caráter: (...) 2 Conjunto de traços da personalidade, comportamento etc. que distingue uma pessoa ou um grupo: É irmã gêmea dela, mas tem um caráter diferente. (...). 3 Qualidade específica de pessoa ou coisa: uma invenção de caráter revolucionário. 4 A concepção ética e moral de uma pessoa, ger. expressando virtude, firmeza etc.: O seu amigo é uma pessoa de caráter (caráter firme); Aquele advogado não tem caráter (um bom caráter). (...)”

[4] Extraído do Mini-dicionário Caldas Aulete: “Rotina: 1 Repetição diária ou habitual das mesmas atividades: Minha rotina à noite é lanchar e ver televisão. 2 Acontecimento ou atividade comum, trivial: Falta de água aqui é rotina. 3 Lista seqüencial de atividades que devem ser cumpridas para se realizar uma tarefa: a rotina para desarmar um alarme.”

[1] Extraído do Mini-dicionário Caldas Aulete: Flexível: 1 Que se pode dobrar ou curvar. 2 Que tem elasticidade (tecido flexível). 3 Fig. Falto de rigidez; MALEÁVEL. 4 Fig. Fácil de ser convencido ou manobrado: Ele aceita mudanças, é um sujeito flexível.

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